Capa do livro Terra Sonâmbula

Moçambique: Terra Sonâmbula

Resenha nº 42: Terra Sonâmbula – Mia Couto 

Olá! A resenha de hoje é do livro Terra Sonâmbula, do autor moçambicano Mia Couto, premiado com o Camões em 2013. O livro foi publicado em 1992 em Portugal.

Esse é um livro muito comum nos vestibulares brasileiros. Ele conta a história do velho Tuahir e do menino Muidinga, que sobrevivem no meio de uma guerra em Moçambique.

Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade. Por isso ele não insiste. 

Infelizmente, Moçambique é um país que nunca viveu muitos anos de paz. Recentemente, grupos terroristas islâmicos atacaram o norte do país, uma região pobre e que poderia se desenvolver com a exploração do gás natural. Quase metade dos habitantes deixaram a cidade após o ataque e as atividades de exploração foram encerradas.

Comentei sobre a eternidade que demorava a guerra. Assane discordou: 

– Nem isto guerra nenhuma nem é. Isto é alguma coisa que ainda não tem nome.

Se explicou: antes fosse uma guerra a sério. Se assim fosse teria feito crescer o exército. Mas uma guerra-fantasma faz crescer um exército-fantasma, salteado, desnorteado, temido por todos e mandado por ninguém. E nós próprios, indiscriminadas vítimas, nos íamos convertendo em fantasmas. 

– No fundo da latrina não pode haver guerra limpa.  

No livro, vemos a miséria da população e como a sobrevivência se tornou ainda mais difícil no meio de um conflito armado. Pelas notícias, percebo que a situação melhorou muito pouco nos últimos 30 anos, infelizmente.

Agora, somos um povo de mendigos, nem temos onde cair vivos. 

A narrativa apresenta um realismo mágico, é recheada de simbolismos e elementos folclóricos, exaltando a riqueza da cultura em Moçambique. Mia Couto é também um poeta e não deixa de brincar com as palavras, criando neologismos como “administraidor” e “abensonhar”.

São nossos olhos que fazem o belo.

O enredo inicia com a chegada de Tuahir e Muidinga a um autocarro (ônibus) queimado. O local se torna abrigo para a dupla, que após enterrar os corpos carbonizados descobre um corpo recostado à árvores e uma mala intacta com cartas e cadernos dentro dela.

A morte, afinal, é uma corda que nos amarra as veias. O nó está lá desde que nascemos. O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando pouco a pouco. 

Na mala, estavam os cadernos de Kindzu. O livro intercala o relato de Kindzu e o cotidiano de Tuahir e Muidinga.

– O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê? 

– Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando. 

– E alguém vai ler isso? 

– Talvez. 

– É bom assim: ensinar alguém a sonhar. 

– Mas pai, o que passa com esta nossa terra? 

– Você não sabe, filho. Mas enquanto os homens dormem, a terra anda procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. Sim, faz conta ela é uma costureira dos sonhos. 

Os cadernos contam a jornada de Kindzu, a partir delas vemos um cenário mais completo da guerra e da população. O espírito do seu pai o acompanha, solitário e amargurado pela negligência com seu espírito após o falecimento.

Precisamos esquecer quase tudo, não é? Agora, eu entendo bem os babalazes de meu pai. 

Kindzu deseja se juntar aos guerreiros Naparamas, que diziam ser imunes às balas. Ele nunca se encaixou bem em sua comunidade, era amigo de um comerciante indiano e frequentava as aulas do pastor da comunidade.

Através dele, conhecemos um pouco das movimentações políticas da época, que envolvia diversos grupos parasitas e corruptos, que se fortaleciam da miséria generalizada.

Não usaria a palavra roubar. Talvez nacionalizar. Nacionalizar uns bens a favor do povo original. 

Não esqueças, patrão. A riqueza é como o sal: só serve para temperar. 

Apesar dos elementos fantásticos, a história é profundamente triste e não há um caminho aparente para a prosperidade, tanto que até hoje os efeitos da guerra não foram superados.

Grupos armados ainda atuam na região. A juventude ainda não enxerga perspectivas para o futuro e não é capaz de viver em paz.

O mundo não tem nenhuma utilidade, disse ele. E concluiu: a felicidade só cabe no vazio da mão fechada. A felicidade é uma coisa que os poderosos criaram para ilusão dos mais pobres. 

Eu gostei muito da experiência de leitura desse livro, foi algo único e me despertou muita compaixão pela situação dos nossos irmãos moçambicanos. Desejo do fundo do coração que esse ciclo de violência seja quebrado e os moçambicanos possam viver em paz e segurança.

O final do livro é muito bem construído, não deixa pontas soltas. Recomendo demais a leitura!

Esse é mais um livro com a temática triste da guerra. Recomendo também as resenhas de Nada Novo no Front e Mayombe, que relatam sobre a Primeira Guerra Mundial e a revolução em Angola, respectivamente.

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Ficha Técnica:

Autor: Mia Couto

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2018

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