Capa do livro Bestiário, de Julio Cortazar

Argentina: Bestiário

Resenha nº 9: Bestiário – Júlio Cortázar

ALERTA DE SPOILER NO DECORRER DA RESENHA!

Bestiário é um livro que entrou na minha lista há alguns meses e eu estava ansiosa para ler Cortázar e resenhar a obra. Esta é a primeira coletânea de contos do autor, que o consagrou nesse gênero. Infelizmente, eu não me dou muito bem com histórias curtas (contos e crônicas), sempre fico com a sensação de não ter entendido a mensagem, de não conseguir extrair nada do texto.

Neste caso aconteceu o mesmo, mas descobri que não foi totalmente culpa minha. Cortázar criou histórias permeadas de mistérios, perguntas não respondidas e elementos fantásticos, nas quais o desfecho de cada conto não está definido e portanto a conclusão varia de acordo com a imaginação do leitor.

No total, são 8 contos: Casa Tomada, Carta a uma Senhorita em Paris, Distante, Ônibus, Cefaleia, Circe, As Portas do Céu e Bestiário, que dá título ao livro.

Em A Casa Tomada, dois irmãos vivem sós em uma casa grande, vivendo da renda rural de sua família rica. Em meio à sua rotina monótona, os irmãos descobrem que parte da casa foi “tomada” (por quem/pelo quê?) e então abrem mão dos cômodos atrás da porta trancada. Depois de se habituarem ao espaço restrito, o restante da casa é tomado novamente e os irmãos se veem no olho da rua, apenas com a roupa do corpo.

Carta a uma Senhorita em Paris possui elementos fantásticos: um homem vomita coelhos. Será que isso significa alguma coisa? Os vômitos passaram a ser mais frequentes após sua mudança do campo para a cidade e o homem não tem coragem de matá-los. Ele tenta esconder sua doença de Sara, mulher que vive no apartamento, acredito que uma empregada. Ele cria os coelhos em seu quarto, mas as criaturas, antes fofas, começam a causar problemas e destruir o apartamento de Andrée, e o homem adota uma postura complacente. A coisa sai de controle a um ponto onde ele escreve a carta como uma despedida e a história termina como um grande ponto de interrogação, mas com uma sensação de morte. Pesquisando, encontrei duas hipóteses interessantes para a história. A primeira é de que o homem teria se suicidado e a segunda é de que a fúria de destruição alcançara tal proporção que a pessoa a morrer é Sara, pouco citada na história.

Distante é um conto em que eu interpretei de um modo diferente das resenhas que eu li. Para mim, a personagem é uma moça que sofre algum transtorno de múltiplas personalidades, a personalidade que conta a história comenta sobre uma mulher distante que sofre maus tratos, por quem ela torce para que se sinta melhor. Em sua mente, essa outra pessoa vive em Budapeste e por isso deseja encontrá-la um dia viajando à cidade. Para mim, é ela mesma e o encontro de ambas em sua lua de mel é uma alucinação. A moça já parecia afastada da realidade em sua maneira de contar a história e seus conflitos internos.

Em Ônibus, uma moça vai visitar sua amiga e entra num ônibus onde todos os demais passageiros levam flores (eles vão a um cemitério) e passam a encará-la com olhos acusadores, deixando-a desconfortável. O mesmo acontece com o moço que entra em seguida, de forma que se tornam cúmplices. Mas eu não entendi porque o motorista fica tão agressivo com a dupla, ele se ergue várias vezes como que para tirar satisfações e só é apaziguado pelo cobrador. A história é interessante, mas não consegui extrair um sentido para ela, e não encontrei ninguém com um palpite melhor que o meu.

Cefaleia é um dos meus favoritos, é intrigante. Um casal cria mancúspias, animal vivo na imaginação de Cortázar que provoca doenças em seus tratadores, em especial dores de cabeça e algumas alucinações. Acho interessante a história da perspectiva de doentes mentais.

Circe é um conto que demorou a passar… É sobre uma moça e como os seus dois noivos morreram. A moça prepara ótimos licores e bombons. O terceiro noivo se previne, descobre uma barata em um dos bombons. Talvez ela estivesse tentando matá-lo também. O final não dá pistas sobre o noivo querer dar continuidado ao noivado.

As Portas do Céu é lindo. Um homem perde sua esposa para a tuberculose e tenta curar a sua dor em uma farra na noite Argentina, com muito tango em um cabaré. Porém, sua mulher era feita para a farra e a saideira apenas fê-lo reencontrá-la, uma visão que o deixa abalado em companhia de seu “amigo”. Eu quase achei que eles formariam um par homossexual, mas no fim abandonei a ideia. A história é sobre a perda de um amor.

Por fim, Bestiário, meu conto favorito. Isabel, uma criança, é mandada para veranear no campo e fazer companhia ao seu primo. Na casa do menino, mora um tigre. Sua presença é evitada sempre que possível. A única mulher da casa, tia Rema, parece triste e incomodada com a conduta de Nenê, suspeito de que ele estava assediando-a (a relação parental entre eles não fica clara). Isabel não é boba e percebe o desconforto. Através de uma carta convida sua mãe a visitar a tia Rema. Movida por uma fascinação e amor por sua tia, acho que este é o conto com o desfecho melhor delineado: a menina dá informação errada e manda Nenê para o mesmo cômodo que o tigre, o que culmina em sua morte.

Dizem que ou se ama ou se odeia o estilo de Cortázar, no meu caso estou fascinada pela escrita, mas acho que devo mudar o formato. Quero ler suas novelas, talvez eu aprecie mais. Sua obra prima é considerada O Jogo da Amarelinha. Para mais conteúdo relacionado ao desafio, curta a página do blog no Facebook!


Ficha Técnica:

Autor: Júlio Cortázar

Editora: Nova Fronteira

Edição: 1

Ano: 1986

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5 comentários

  1. Meus Parabéns , esse é livro que excita a imaginação do leitor fazendo com ele fique se perguntando será a acaba tendo que ler outra vez para confirmar a suposição inicialmente feita. Muito boa a resenha me deixou com vontade de ler este livro.
    Mais uma vez parabéns
    love..

    Curtir

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